Evolução de um tratamento Homeopático para cães acometidos por acidente ofídico por Crotalus durissus terríficus na região de Jundiaí – SP.

Roberto Mangiéri Junior
Médico Veterinário, MSc., PhD.
cel.: (11) 9723.5903

Clínica Veterinária

O propósito deste estudo é demonstrar a evolução do tratamento homeopático que nos propusemos a levar a cabo em 4 cães que passaram por acidente ofídico, mordidos por Crotalus horridus (Cascavel) na região de Jundiaí – SP, até o estabelecimento de um protocolo, que hoje seguimos neste serviço médico veterinário. Sugerimos ainda aos colegas que tiverem a oportunidade de estar frente a casos como estes, que usem outros medicamentos homeopáticos que nos parecem poder ajudar.

Introdução

Em regiões de clima tropical, com muitas pedras, desmatamentos (especulação imobiliária), os acidentes ofídicos, tanto pela sua freqüência como pela morbidade que ocasionam , constituem importante problema em medicina humana e veterinária, sobretudo em regiões rurais. Em 1972 estimou-se que no Brasil ocorressem por ano cerca de 80.000 a 115.000 acidentes ofídicos na espécie humana, sendo que destes, 2000 evoluíam para o óbito. Os dois principais gêneros de serpentes envolvidos nestes acidentes são o Bothrops e o Crotalus (AMARAL et al. 1986). Experimentalmente a toxicidade do veneno das serpentes do gênero Crotalus mostra-se maior que as serpentes do gênero Bothrops (JOEGE: RIBEIRO. 1992).
“As serpentes não são naturalmente agressivas. Só atacam para se defender, quando se sentem em perigo, ameaçadas ou provocadas. A cascavel, inclusive, emite com o chocalho, o guizalhar característico que denuncia sua presença. (VAZ OLIVEIRA, 1999).
Pressentindo perigo as serpentes venenosas se enrodilham ou se contraem em forma de “S”: Armam o bote. A distensão (bote) alcança em média a distância correspondente a um terço de seu tamanho. Normalmente os botes são rápidos e certeiros e as serpentes conseguem inocular o veneno em sua vítima. (VAZ OLIVEIRA, 1999).
O homem e os animais domésticos obviamente não fazem parte da dieta das serpentes. Ao pisá-las inadvertidamente são picados como reação natural de defesa e instinto de sobrevivência. (VAZ OLIVEIRA, 1999).
Os animais passam perto sem vê-las. Os cães, sobretudo os mais curiosos, têm até o impulso de ir brincar com aquela coisa estranha e que faz uns barulhos característicos, no caso da cascavel (guizo) – e ai são picados. “Os bovinos e equídeos , quando percebem uma serpente – se afastam de imediato, são picados quando não percebem sua presença, o que pode não acontecer com bezerros e potros que também são curiosos” (VAZ OLIVEIRA, 1999).
As serpentes do gênero Crotalus que no Brasil pertencem toda a espécie Crotalus durissus, conhecida popularmente por cascavel, boicininga, boiçununga, cobra de guizo, maracá, são responsáveis por cerca de 10% dos acidentes ofídicos humanos do país, apresentando um índice de letalidade de 3,3%. No período de 1986 a 1988, foram responsáveis por 13,6% dos 4.685 acidentes no estado de São Paulo, em que o gênero de serpente envolvido foi identificado.  A subespécie que mais causa acidentes no país é a Crotalus durissus terríficus encontrada principalmente em regiões semi-áridas (JORGE; RIBEIRO 1992).
As principais toxinas já isoladas e caracterizadas do veneno crotálico são a crotoxina (SLOTTA; FRAENKEL-CONRAT, 1938), a crotamina (MOURA-GONÇALVES; VIRIRA, 1950), a convulxina (PRADO-FRANCESCHI; VITAL BRAZIL, 1981) e a giroxina (BARRIO, 1961). A elevada toxicidade do veneno é atribuída a crotoxina, seu principal componente que, juntamente com a crotamina, atuam sobre o sistema nervoso periférico (VITAL BRAZIL, 1972) e tecido muscular induzindo mionecrose (GOPALAKRISHNAKONE; HAWGOOD, 1984). A convulxina pode provocar convulsões, perturbações respiratórias e circulatórias e agregação plaquetária em diversas espécies animais (PRADO- FRANCECHI; VITAL BRAZIL, 1981), enquanto que a giroxina é uma enzima tipo trombina (ALEXANDER et al., 1986) que quando administrado por via intravenosa a ratos, provoca uma síndrome neurológica similar à provocada pela lesão do labirinto, caracterizada por episódios de rotação do corpo em torno do seu eixo longitudinal (BARRIO, 1961).
O veneno de Crotalus durissus terrificus tem atividade neurotóxica (por meio de ação periférica em placa motora) (VITAL BRAZIL, 1980.), miotóxica sistêmica (AZEVEDO MARQUES el al., 1964) e hemolítica “in vitro”, discutindo-se a ação “in vivo” (AMARAL et al., 1988).
Nos acidentes causados por veneno de Crotalus durissus terrificus ao contrário do que ocorre com serpentes Crotalus das Américas Central e do Norte, não se observam reações locais significativas (AMORIM et al., 1951; ROSENFELD, 1971). De fato, esse veneno induz fraca resposta inflamatória e parece possuir propriedades anti-inflamatórias, inibindo algumas funções de macrófagos (SOUZA E SILVA et al., 1996).
A maioria absoluta dos relatos de envenenamentos crotálicos envolve a espécie humana, sendo escassos os trabalhos publicados relatando o quadro clínico em animais. No tocante ao tratamento – Homeopático, os relatos são ainda mais escassos. Na verdade, se estes existem, não foram publicados até o momento.
No Homem é comum o aspecto característico de “facies neurotóxica”, no qual ocorre a ptose palpebral, paralisia dos músculos esqueléticos, manutenção da boca entreaberta e enrugamento da testa, na tentativa de abrir os olhos. Observa-se também diminuição da motricidade ocular e da acuidade visual (ROSENFEL, 1971). Em cães acidentados naturalmente por Crotalus durissus terrificus, também já foi descrito o aspecto de “facies neurotóxica” com ocorrência de ptose palpebral, anisocoria e sialorréia (KOCINCZUK, 1998). Também na nossa experiência ocorre a anisocoria e a ptose palpebral é tão marcante que vários de nossos casos chegaram a fazer ceratite e úlcera de córnea.
Alterações no sistema nervoso central foram relatadas em bovinos correspondendo a hemorragias subdurais profusas e acúmulo de sangue nos espaços de Virchow-Robin (SALIBA et al., 1983).
Clínica Veterinária Uma das principais e mais estudadas alterações causadas pelo veneno da Crotalus durissus terrificus, é o distúrbio da coagulação por ele induzido observado em aproximadamente 50% dos pacientes picados pela serpente atendidos no Hospital Vital Brazil, no período de 1974 a1990 (JORGE; RIBEIRO, 1992).
AMARAL et al. (1988), argumentam que a intensidade das alterações dos testes de coagulação pode ser um bom parâmetro da gravidade do caso, orientando assim a administração de doses corretas de antiveneno, otimizando o tratamento.
Outro importante efeito do veneno é a rabdomiólise generalizada que resulta no aumento dos níveis séricos das enzimas musculares creatinina fosfoquinase (CPK), lactato desidrogenase (LDH) e aspartato amino transferase (AST) e na presença de mioglobina no soro e na urina (AZEVEDO-MARQUES et al., 1985; 1987). Aliás, foi essa mioglobinúria a responsável pelo conceito errôneo de que o veneno de Crotalus durissus terrificus teria ação hemolítica “in vivo”, que sempre foi avaliada pela detecção de hemoglobina na urina realizada exclusivamente por meio de testes com a benzidina, que dá resultado positivo também em presença de mioglobina (AZEVEDO-MARQUES et al., 1987). A aparência histológica do tecido muscular de camundongos que receberam injeções de veneno crotálico foi de necrose de coagulação, necrose miolítica ou uma combinação de ambas (HUDELSON; HUDELSON, 1995).
Em casos graves, ocorre insuficiência respiratória (AMARAL et al., 1991), que pode ser atribuída à ação neurotóxica do veneno, causando bloqueio neuromuscular (VITAL BRAZIL, 1980), e o edema pulmonar agudo, conseqüente a insuficiência renal aguda, secundária ao acidente crotálico (AMARAL et al., 1986).  A insuficiência respiratória também já foi observada no envenenamento experimental de cães (AMORIM et al., 1996).
AMORIM et al. (1951), descreveram apenas pequenas lesões hepáticas induzidas experimentalmente pela administração de veneno crotálico: hiperemia no fígado de coelhos, ratos e de um cão e presença de trombose em ramos venosos portais em outro cão. Foram também descritas degeneração hidrópica, esteatose e necrose do fígado e do miocárdio em bovinos (SALIBA et al. 1983).
A seqüela de acidentes ofídicos que mais causa mortes em seres humanos é a insuficiência renal aguda (ROSENFELD, 1971), entretanto a sua patogenia não está totalmente estabelecida (AMARAL et al., 1986). Observa-se comportamento dos néfrons intermediários, semelhante ao que ocorre após transfusões de sangues incompatíveis (AMORIM et al., 1951; ROSENFELD, 1971), com lesões anatômicas, nem sempre presentes, de glomérulonefrite aguda, necrose tubular aguda e necrose cortical renal (AMARAL et al., 1986).
As lesões renais observadas no envenenamento crotálico, tem sido atribuídas a uma ação nefrotóxica direta do veneno à hipotensão arterial, ao choque e a liberação de mioglobina secundária à rabdomiólise, com conseqüente mioglobinúria, o que confere uma coloração escura a urina. A insuficiência renal aguda é caracterizada, clinicamente, por oligúria ou anúria, uremia, hiperpotassemia, acidose metabólica, anemia, hiperhidratação (AMARAL et al., 1986), hiperfosfatemia e hipercalcemia (HUDELSON; HUDELSON, 1995). Em humanos, foi descrita na urinálise a presença de pigmentos heme, proteinúria e glicosúria (AMARAL et al., 1988). Esse padrão de insuficiência renal também foi estabelecido em cães (AMORIN et al., 1951; VITAL BRAZIL, 1980) e bovinos, sendo que neste foram observadas lesões progressivas de néfrons (refletindo em proteinúria, glicosúria e dificuldade renal em concentrar a urina), microhematúria (devido à congestão renal e aumento da permeabilidade ao nível glomerular, conseqüentes à glomerulonefrite) e ausência de hemoglobinúria (BIRGEL et al. 1983).
Já foram relatadas também alterações no leucograma de indivíduos acidentados por Crotalus durissus terrificus. ocorrendo inicialmente leucocitose de 18.328 leucócitos/mm³, com neutrofilia relativa de 88% e absoluta de 16.407 neutrófilos / mm³ e desvio a esquerda, em alguns casos, seguida do aparecimento de eosinofilia relativa de 22% e absoluta de 1.853 eosinófilos/mm³ e tendência a normalização do número total de leucócitos. Tais alterações, entretanto, podem ter sido causadas pela administração intravenosa de soro heterólogo anticrotálico (JORGE et al., 1987).

Reação Anafilática

Complicações da soroterapia podem ocorrer dependendo do grau de sensibilidade que o acidentado apresente. Esta sensibilidade ao soro pode se manifestar de maneira branda, podendo chegar ao quadro de choque anafilático. A realização da prova intradérmica, para avaliar o grau de sensibilidade ao soro, deve ser adotado como prevenção às reações indesejáveis.

Tratamentos complementares (Alopáticos)

As lesões e seqüelas de um acidente ofídico variam de acordo com a espécie, local da picada, volume de veneno inoculado, idade e saúde do acidentado, dentre outros. A ação da peçonha ofídica provoca diferentes lesões no organismo do acidentado e predispõe a outros processos patológicos como as infecções secundárias, as quais são causadas por bactérias anaeróbias Gram- positivas (Clostridium sp) e outras encontradas na boca das serpentes.  O surgimento de infecções secundárias recomenda a antibioticoterapia.  Assim cuidados médicos complementares deverão ser adotados com vista ao tratamento de outras manifestações clinicas decorrentes da ação direta do veneno e das complicações secundárias que poderão surgir, tais como reações alérgicas e as infecções. (Vaz Oliveira, Cad. Tec. Vet. UFMG, n.28, p.5-52, 1999)

Reações Adversas á Soroterapia

Não é realizado teste alérgico de sensibilidade para a administração do soro antiofídico nos animais domésticos. Se por ventura o teste for realizado, deve ser feito antes do uso de anti histamínicos e/ou corticosteróides.  Deve-se salientar que as reações adversa à soroterapia podem ser precoces ou tardias.  As reações precoces ocorrem nas primeiras 24 horas e podem se manifestar desde uma forma leve ate extremamente grave.

Objetivos

  1. Relatar  a evolução de nossa experiência no  tratamento Homeopático de acidentes ofídicos com Cascavel (Crotalus durissus terrificus) com cães, descrevendo casos recebidos neste serviço veterinário  no período compreendido entre Março de 1998 a  Abril de 1999.
  2. Propor um protocolo para o  tratamento  a  cães picados acidentalmente por Cascavel baseado na homeopatia, a partir de relato de casos que chegaram ao nosso serviço e nos deram a possibilidade de experimentar, aprender e evoluir no tratamento até a criação de um protocolo, que desde então é usado  neste serviço como base terapêutica, já que cada caso tem suas particularidades.
  3. Também faz parte do objetivo desta comunicação, evidenciar a ausência de riscos com reações indesejáveis(alérgicas / anafiláticas) e o baixo custo financeiro do tratamento quando comparado com o tratamento convencional.

MATERIAIS E MÉTODOS

Casos  Clínicos

Relação e evolução clinica de quatro casos que procuraram este serviços veterinário entre  Março/98 e Abril /99.

Relato dos Casos:

  • 1º Caso – 03/03/98 – Espécie: Canina    -  Macho   -  7 anos  - 20 kg  -  SRD  - Nome: Ted.
    Histórico: Animal foi picado por cobra Cascavel ( Crotallus durissus terrificus) às 07:00 h.
    Proprietário viu o acidente, mas deu pouca importância.
    O cão foi piorando e chegou ao  serviço veterinário  as 15:00 h.
    Exame Clinico / Sintomas:
    Dificuldade em identificar o local da picada – reação local muito discreta.
    Midríase ( Visão reduzida);
    Paralisia geral/ Catatonia;
    Ptose palpebral ; o cão já não consegui piscar.
    Freqüência Cardíaca : 140 BPM/  Respiração pouco profunda (curta)- 60 mov / min.
    Tratamento:
    Soro anti-ofídico Botrópico – Crotálico (Lab Vencofarma) – 2 ampolas de 5 ml  S.C. e 2 ampolas de 5 ml I.M. ( Cada mililitro neutraliza 2,0 mg de veneno de Bothrops jararaca e 1,0 mg de veneno de Crotallus durissus terrificus.
    Hidratação  EV. – Ringer – lentamente;
    Crotallus terrificus CH 5 (plus)- 15/15 min – nas primeiras 6 horas
    02/02 h - no 2º e 3º dias de tratamento ( das 08:00 às 22:00 h) .
    06/06 h - do 4º ao 7º dia ( das 08:00 às 22:00 h)
    No 8 º dia de tratamento(11/03/98) – recebia soro via oral, se alimentava sozinho (mastigava e engolia bem). Porém em decúbito lateral.
    Teve alta sob controle- continuou com Crotallus terr CH5 – 3x/dia e tratando a ceratite que se instalou  decorrente da paralisia severa dos músculos palpebrais – (Acetato de retinol/ Metionina/ A.A./ Cloranfenicol) – Epitesan  oculum- Lab Frumtost  - de 03/03 h.
    Em 25/03/98 – Vinte e dois dias após o acidente, reavaliamos o animal . Estava muito bem – sem seqüelas clinicamente detectáveis – final do tratamento.
     
  • 2º Caso – 11/04/98
    Espécie: Canina -  Macho  -  3 anos  -  10 kg  -   SRD  - nome: Encrenca
    Histórico:  O proprietário não viu o acidente nem a cobra, mas suspeitava a se julgar pela grande  incidência desta cobra ( Cascavel) na região. Logo, não sabe há quanto tempo aconteceu .
    Exame Clinico / Sintomas:
    Pequena reação local (Focinho);
    Paralisia geral / Catatonia;
    Ptose palpebral / Não piscava;
    Midríase:
    Freqüência cardíaca : 150 BPM / freqüência respiratória 72 mov/ min.. Movimentos curtos; não conseguia expandir os  pulmões(paralisia).
    O proprietário, sem condições de arcar com os custos do tratamento, pediu para sacrificar o animal de forma a não deixa-lo sofrer.
    Sugeriu-se que deixasse o animal para que tentássemos um tratamento alternativo, sem compromisso para o proprietário; e assim foi feito.
    Tratamento :
    Hidratação – Ringer EV – lentamente;
    Instilação de soro (NaCl 0,9%) nos olhos freqüentemente – para prevenir a instalação da ceratite;
    Crotallus terr CH5 – 15/15 min – 1º dia até as 22:00 h
    02/02 h  - 2º e 3º dias de tratamento ( 08:00 às 22:00h);
    06/06 h  -  do 4º dia de tratamento em diante.
    Carbo vegetabilis CH6 – 08/08 h. Desde o 1º dia de tratamento.
    Animal teve melhora progressiva desde o primeiro dia de tratamento.
    No 8º dia de tratamento, animal foi devolvido ao proprietário. Continuou  com  Crotallus terr CH5, 2x/dia e fazendo o tratamento alopático para tratar a ceratite (Acetato de retinol/ A.A./ Metionina/ Cloranfenicol – Epitesan oculum – Lab Frumtostde 03/03 h.)que também se instalou.
    Em 30/04/98 – Reavaliação do animal – Está muito bem , sem seqüelas clinicamente detectáveis.
    Final do tratamento.
     
  • 3º  Caso – 09/09/98
    Espécie: Canina  -  Fêmea  -  2 anos  - 20 kg -  Pastor Belga  -  Nome: Brisa.
    Histórico: Às 7:30 h – Proprietário viu a cobra Cascavel  perto do canil e a cadela deitada sem poder se movimentar.
    Às 9:00 h – Já estava sendo  examinada e medicada.
    Sintomas:  Discreto aumento de volume no lado esquerdo do focinho;
    Paralisia de todo o corpo ( Catatonia);
    Decúbito lateral;
    Ptose palpebral / Não consegue piscar;
    FC e FR  dentro da normalidade
    Tratamento:
    Crotallus terr. CH5  - 15/15 min. – 1º dia  até as 22:00 h.
    Nux-vomica CH6    - 15/15 min - 1º dia  até as 22:00 h. “
    Curare CH6             - 15/15 min - 1º dia  até as 22:00 h.
    Carbo veget.            -  15/15 min - 1º dia  até as 22:00 h.
    Hidratação – Ringer – EV – lentamente
    Instilação de soro Fisiológico ( 0,9% NaCl) nos olhos – prevenir a ceratite
    Evolução :
    Animal chegou a ter piora no decorrer do dia – respiração mais superficial – não conseguia expandir os pulmões. Perda quase total dos movimentos da musculatura estriada.
    Seguiu com este tratamento até 22:00 h, quando foi interrompido para ser retomado no dia seguinte.
    10/03/98 – Pela manhã foi encontrado em decúbito esternal . As 12:00h já estava em pé com pouca dificuldade.
    Tomou água e comeu bem ( sem dificuldade pára mastigar e engolir).
    Continuou com a medicação proposta  de 2 em 2 h pela manhã e de 6 em 6 h a partir das  14:00h. até as 20:00h. inclusive em 11/03/98.
    12/03/98 – Teve alta pela manhã. Estava com todas as funções clinicamente normais. Seguiu sem medicação
    15/03/98 – Noticias por telefone – estava muito bem.
    Vejo o animal com freqüência . Segue bem e sem seqüelas clinicamente detectáveis.
     
  • 4º Caso – 31/03/99
    Espécie: Canina  - Fêmea  -  3 anos  -  11 kg  -  SRD  -  Nome: Branca
    Histórico: Ás 16:00 h  o animal foi encontrado. Proprietário relata que as 12:00 h  o animal foi  visto brincando pelo sítio.
    Às 18:00 h – animal deu entrada neste serviço completamente paralisado, sem o menor tônus muscular. Pálpebras paralisadas em  ptose. 
    F.R – baixa ( 1 movimento respiratório a cada 3-4 segundos aproximadamente) e de pouca amplitude.
    F.C. – 145 BPM. Cianótico. Quase parando de respirar.
    Tratamento:
    Imediatamente foi iniciado o tratamento  para picada de cascavel (Crotallus durrisus terrificus). Procuramos o sinal da picada; havia um discretíssimo aumento de volume na axila direita.
    Se este não fosse um acidente ofídico – picada de cascavel – os sintomas já nos autorizariam a usar o mesmo protocolo.
    Medicação:  Neste caso usamos Opium CH6 de 10 em 10 min até a melhora da freqüência
    Respiratória, o que ocorreu  30 min. após  o inicio da administração deste remédio.
    Medicação:
    Crotallus terr. CH5   15/15 min. ;
    Nux-vomica CH6      15/15 min;
    Curare CH6              15/15 min;
    Carbo veget. CH6    15/15 min.;
    Hidratação – Ringer EV – Lentamente./ Instilação de soro fisiológico nos olhos com freqüência.
    Este protocolo foi cumprido até 22:00 h , quando o animal pela  primeira vez abanou o rabo.
    01/04/99 –(Dia seguinte) Mesmo protocolo foi cumprido, porém a medicação foi administrada de 2 em 2 h.
    A hidratação já era feita via oral.
    Urinou . Pela primeira vez  dentre todos  os animais tratados – vimos a cor de urina característica da mioglobinúria (vermelho terra).
    02/04/99 – Mesma medicação foi administrada – freqüência – 6 em 6 h.
    Ao  meio dia, ainda deitada – decúbito esternal – comeu. Já conseguia piscar.
    Inicio da ceratite – Tratamento alopático como já foi descrito nos casos anteriores.
    03/04/99 – Mesma medicação do dia anterior foi ministrada . Comeu e bebeu em decúbito esternal.
    04/04/99 – Estava em pé pela manhã, abanando o rabo.
    A partir deste dia, não tomou mais remédios homeopáticos. Apenas continuou tratando a ceratite
    alopaticamente.Foi para casa.
    14/04/99 – Ao exame – estava bem, sem seqüelas clinicamente detectáveis – sem ceratite.

RESULTADOS

Todos os quatro casos que atendemos no referido período, adotando o tratamento homeopático proposto, evoluíram para a cura.
Houve variação no tempo de tratamento,  fator este relacionado, acreditamos, com a quantidade de veneno injetado no acidente e o tempo decorrido entre o acidente e o início do tratamento.
No terceiro (3º) caso em que o animal foi socorrido rapidamente após o acidente; aproximadamente uma hora e meia , houve recuperação rápida e total num prazo inferior a 96h.

DISCUSSÃO

Clínica Veterinária

Não encontrou-se na literatura pesquisada, trabalhos que relatassem o uso de remédios homeopáticos, sejam eles quais forem, no tratamento de acidentes ofídicos por cascavel (Crotallus  durissus terríficus).
Os sintomas que colhemos de nossos pacientes são advindos de acidentes ofídicos(naturais); logo a comparação com a descrição das patogenesias dos remédios homeopáticos das diversas matérias médicas (principalmente de Crotallus terrificus) tem valor relativo. A principio porque as experiências são levadas a cabo com indivíduos(humanos) sãos; aqui não podemos levar em consideração, pelo menos num primeiro momento, os sintomas mentais, devido a gravidade / urgência do caso. Porém sugerimos que depois de contornado o risco de vida, se procure o similimun e este seja usado com muito critério já que nesta fase não se pode incorrer em erro. Se trata de exigir reação da energia vital de um indivíduo por demais debilitado. Talvez até um similar seja mais adequado nesta fase, como já é do conhecimento dos homeopatas.  
Nos casos relatados – não fizemos uso de remédio constitucional .
A tendência a hemorragias – descrita nas várias matérias medicas de Crotallus terrificus, não foram vistas em  nossa casuística . Evidenciamos em apenas um de nossos casos (o 4º), a ocorrência de mioglobinúria que não deve ser tomada (confundida) como hemorragia, pelas razões já expostas por AZEVEDO-MARQUES et al., (1985 e 1987). A mioglobinúria é sim advinda de necrose  de coagulação, necrose miolítica ou uma combinação de ambas (HUDELSON & HUDELSON, 1995).
Em nenhum dos casos que  atendemos , tivemos a oportunidade de realizar exames laboratoriais, pois este é um serviço particular e o custo de exames representa um grande entrave. Fizemos apenas observações clinicas. Inclusive nos dois primeiros casos relatados aqui,  os proprietários desistiram de tratar os animais. Só quando pedimos permissão para tentar um tratamento alternativo e que este não traria custos , recebemos autorização.  Por outro lado foi o que nos deu oportunidade de por em prática(ousar) os ensinamentos da homeopatia  em casos agudos e de grande risco, o que não é uma constante.
No nosso 2º caso, acreditamos que a homeopatia se fez  aplicar em toda  a sua magnitude. Pois não se teve nunca a certeza  de que o  mal que o animal apresentava era  um acidente ofídico por cascavel (Crotallus terríficus), porém  apenas os sintomas já nos davam a mais alta autorização  para usar os medicamentos do protocolo, visto que estes são usados com base nos sintomas e não no agente causador do acidente. O resultado foi o esperado – A cura .
No relato do 3º caso (Brisa), em que o animal foi atendido  pouco tempo após o acidente ofídico, um detalhe  na evolução do caso nos chamou a atenção. Após algumas horas do inicio do tratamento, dizemos:
“ O animal chegou a ter piora durante o dia- respiração mais superficial, não conseguia expandir os pulmões. Perda quase total dos movimentos da musculatura estriada.  
Seguimos com o tratamento até as 22:00, quando foi interrompido para ser retomado no dia seguinte.
10/03/98 (dia seguinte) Pela manhã, foi encontrado em decúbito esternal.
As 12:00 h já estava em pé com pouca dificuldade.
Tomou água e comeu bem ( sem dificuldade para mastigar e engolir). “
Neste episódio, ficou-nos a impressão de que nas primeiras horas, o animal pode ter sido medicado em excesso. Pois quando houve uma pausa na terapia, durante a noite, nos parece que demos chance a energia vital de reagir. Talvez  tenhamos ,com a medicação,  provocado uma noxa paralela ainda maior que a original, visto que houve pronunciada melhora quando  paramos de medicar durante um intervalo grande ( toda a noite)
e em seguida retomamos o tratamento com  freqüência menor ( maior espaço entre os estímulos).
A quantidade de veneno injetado em cada acidente ofídico   varia muito. Deve-se também considerar que mesmo uma pequena injeção de veneno no acidente, representa um grande transtorno quando se leva em consideração o peso dos animais acometidos .
O médico ( neste caso, o veterinário) deve estar ao lado de seu paciente  o maior tempo possível, pois estas reflexões só são possíveis quando assim  agimos.

Conclusão

O sugerido  tratamento Homeopático   a cães picados por  cascavel ( Crotallus durissus terrificus)  foi eficaz, independentemente da dose injetada, do tempo decorrido desde o acidente até o início do tratamento. É de custo muito inferior ao tratamento convencional e não expõe o paciente a reações de hipersensibilidade como o faz o tratamento alopático.
O tempo compreendido entre o acidente e o inicio do tratamento é de capital  importância. Tudo leva a crer que a dose de veneno injetado não é de menor importância , porém  imensurável em casos de acidente.
Não estamos aqui relatando os casos bem sucedidos que atendemos de tratamento homeopático para cães picados por cascavel ( Crotallus durissus terríficus). Estes são todos os casos de acidente ofídico por cascavel que chegaram ao nosso serviço neste período.

REFERÊNCIAS
ALEXANDER, G.; GROTHUSEN, J.; ZEPEDA, H.; SCHUARRTZMAN, R. J.; Gyrotoxin- a toxin from the venim of Crotalus durissus terrificus, is a trombin –like enzime. Toxicon, Oxford, v. 26, n.10, p. 953-60,1988.
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